sábado, dezembro 25, 2004

Esta semana:

Barão Vermelho - Barão Vermelho (2004)*



A história do Barão Vermelho está estritamente ligada a uma parcela da história do rock nacional. Não só porque Cazuza foi vocalista da banda, ou pela carreira de mais de vinte anos, mas principalmente por trazer ao rock brasileiro um som forte e marcante, que muitas vezes segue a linha do rock n' roll propriamente dita, flertando com o blues e outros estilos fundantes do que hoje chamamos (e amamos) de rock. É claro que mais de vinte anos de carreira não deixariam a banda sair ilesa, afinal, errar é humano. O mais recente desses tropeços foi "Puro Êxtase", álbum lançado em 1998, onde ocorreu uma grande confusão entre o rock e o eletrônico, o exagerado e o ridículo e outras coisas mais. Rejeitado pela crítica, esquecido pelo mercado e ignorado pelos fãs, "Puro Êxtase" marcou negativamente o início das férias da banda, que antes de abandonar mesmo os instrumentos ainda gravou o "Balada MTV" em 1999 e fez o Rock in Rio em 2001.

A parada foi de cinco anos, rendendo a Frejat dois discos em sua carreira solo ("Amor Pra Recomeçar" de 2001 e "Sobre Nós Dois E O Resto Do Mundo", de 2003); já Peninha, o percussionista, montou sua própria banda; o baixista Rodrigo tocou no acústico Kid Abelha e Fernando Magalhães, o guitarrista, além produzir os Detonautas, montou um selo. E para os fãs, estas férias renderam uma questão: era o fim do Barão Vermelho? A resposta era que cada um estava cuidando de seus projetos, etc, etc, como toda resposta clássica de bandas que não sabem exatamente qual será o futuro. A pulga na orelha só deu trégua agora no fim do ano, com o lançamento de "Barão Vermelho", disco de retorno a labuta da banda.

Com o CD em mãos, mesmo antes de ouví-lo, podemos fazer duas proposições: primeira, o disco talvez seja homônimo para dar a impressão de um retorno às raízes da banda, deixando claro logo na capa que o lado experimental de "Puro Êxtase" parou por lá mesmo. Ainda no encarte, notamos que a produção desse novo trabalho tem a assinatura do falecido produtor musical Tom Capote, o querido de dez entre dez nomes da música nacional contemporânea, e de Ezequiel Neves. A segunda proposição seria, então, de que apenas através da lista de nomes que constam no currículo destes dois, este disco seria, no mínimo, bem produzido. Para tranqüilizar a todos, ao ouvir "Barão vermelho" temos a confirmação dessas duas proposições, e alguns alívios.

O primeiro grande alívio foi que este novo disco está longe de seu antecessor, "Puro Êxtase": abrindo mão de experimentalismos, o Barão voltou a fazer o rock n' roll que consagrou a banda. O segundo foi notar que a carreira solo de Frejat está numa prateleira, enquanto o Barão está em outra. Era de se esperar tal fato, pois o pop-certinho do vocalista não caberia no som da banda, e se por acaso neste disco coubesse, teríamos um problema nas mãos. Por último, a sonoridade vista em "Álbum" (1996) - guitarras que se destacam, levada reta de baixo e bateria simples - é retomada nesse novo trabalho, ou seja, mais Barão Vermelho impossível.

A faixa de trabalho - "Cuidado" - serve apenas para nos mostrar que o Barão voltou, se recuperou do último erro, aproveitou as férias e agora está de volta. "Cara a cara", música que abre o disco, reafirma o primeiro single, mostrando que logo após o play o Barão Vermelho está de volta, rock n' roll como sempre, e tudo isso pode ser visto apenas pela introdução da música. Entretanto, mesmo depois de tais impressões, ao ouvirmos o disco inteiro, notamos que "Barão Vermelho" é um trabalho que quase se desequilibra, pois não possui um meio-termo: Se por um lado há canções no melhor estilo barão-vermelho-pós-Cazuza como "Mais perto do sol", "Tão inconveniente", "Máquina de escrever" e "Só o tempo", que são músicas fortes e características da melhor fase da banda, onde riffs de guitarras seguram o peso das canções, por outro encontramos as baladas, que sendo maioria dentre as músicas do disco, acabam por quebrar o ritmo contagiante das outras músicas do trabalho. Estão nesta lista "A chave da porta da frente" - estilo Santana para uma declaração de amor tão direta quanto bonita -, "Pra toda a vida" - guitarra slide para clima praiano -, "O dia em que você me salvou" - forte concorrente a hit do verão 2005 -, e "Cigarro aceso".

"Barão Vermelho" é, de maneira geral, um disco que não arrisca muito, no qual o Barão faz aquilo que sabe, sem muitos devaneios. As baladas acabam deixando o disco um pouco monótono, como observado acima, mas tendem a agradar fãs, admiradores e ouvintes de FM. Disco certeiro para o verão, é muito provável que sua vendagem seja grande, devido ao não sem querer lançamento próximo ao fim do ano. Mas à parte tudo isso, "Barão Vermelho" marca o retorno de uma das bandas mais importantes do rock brasileiro, que, por sinal, anda um pouco carente de boa música.

*Resenha publicada no site Poppy Corn