domingo, dezembro 05, 2004

Esta semana:

Engenheiros do Hawaii - Acústico MTV (2004)



E mais uma banda dos anos oitenta se rendeu ao formato Acústico da MTV. Revisitar a carreira, reerguer as vendas, angariar novos fãs, celebrar a volta da formação original, etc. Acredito existir inúmeros motivos para tal coisa, mas, entre nós, já está começando a ficar óbvio demais. É certo que alguns acústicos são realmente bons, mas a fórmula está viciada; pelo menos é essa a sensação passada pelo recém lançado acústico dos Engenheiros do Hawaii.

Na verdade, o que salva um pouco o Egh dessa paisagem niilista que criei sobre os acústicos é o fato de em 1993 eles terem gravado o pouco conhecido "Filmes de guerra Canções de amor", um disco semi-acústico que foge completamente ao formato criado e abusado pelas Music Televisions. Pouco mais de dez anos depois, eles estão de volta, abraçando o projeto acústico nos padrões atuais, e devo admitir que é um bom disco. Sem grandes surpresas, é verdade, mas consistente e cheio de tudo o que um fã da banda pode querer: os sucessos, os clássicos, participação especial de ex-integrantes e outras coisas mais. Isso, é claro, se ficarmos na superficialidade do disco.

Desde que se desmantelou, em 1995, com a saída conturbada de Licks, guitarrista da banda, o Engenheiros do Hawaii se tornou a banda de Humberto Gessinger. E nem tente negar isto, pois uma das inúmeras provas irrefutáveis são as capas dos quatro álbuns anteriores da banda. Quem está lá? Pois é, então, como disse, os Egh é o Humberto, e vice-versa - já que Humberto até que tentou um projeto paralelo chamado "Gessinger Trio", mas não vingou; e, diga-se de passagem, uma das músicas deste projeto está neste acústico: "O preço". De certa maneira, essa coisa de “Egh=Gessinger” é uma lógica não muito boa, mas verdadeira, e vem se comprovando desde 1997, quando sobrou apenas Humberto da formação original na banda. Portanto, não é sem querer que além de estar na capa do disco (mais um), ele está na parte da mais alta do palco no show apresentado pela MTV. Seja como for, creio que a fórmula “Egh=Gessinger” já é tão óbvia para o público, que pouco importa nesta altura do campeonato.

O importante (e interessante) de se ouvir um disco como este é que uma das características mais marcantes dos Egh - a autocitação - acabou se tornando não só uma boa sacada, mas uma boa saída. Não são poucas as músicas da banda, principalmente ao vivo, em que uma letra é cantada no arranjo de outra ou uma frase é substituída numa outra canção. Isso sem mencionar a trilogia (“Revolta dos Dândis”, “Ouça o que eu digo, não ouça ninguém” e “Várias e variáveis” ). Posto isto, vemos que neste acústico, o fato de estar recheado de "grandes sucessos" da banda não soa como oportunismo, mas apenas mais uma boa idéia. Por isso, faixas como "O Papa é pop", "Infinita Highway", "Refrão de bolero", "Terras de gigantes", "A revolta dos Dândis" e "Era um garoto que como eu" não só agradarão aqueles fãs nostálgicos, como também garantirá a presença daqueles que só conhecem - ou gostam - das músicas radiofonicamente aprovadas.

Resumindo, o disco abraça um grande período da carreira da banda: de "A revolta dos Dândis", de 1987, até "Dançando no campo minado", de 2003, além das inéditas "Armas químicas e poemas" e "Outra freqüência". É claro, a releitura das canções (coisa que não é tão novidade para a banda) é um dos pontos altos deste acústico. "O Papa é pop" ganhou uma gaita, e mesmo sendo tocada em violões, mantém a estrutura básica da original; "Terra de gigantes" ganhou a tão discutida bateria por toda a música, para delírio dos fãs. Das canções mais novas, "3x4", do disco “!Tchau Radar!”, só não é o oposto do que está no disco original pois ainda é tocada com violões: o clima da música é outro, descontraído e leve, assim como “Surfando karmas e DNA”, do disco de mesmo nome lançado em 2002.

O show/CD/DVD ainda contou com a participação do ex-companheiro de banda Carlos Maltz na faixa "Depois de nós" e Clara Gessinger (isso mesmo, a filha dele) em "Pose", que acabaram por não fazer muita diferença. E mesmo a inusitada participação da pequena Gessinger não fica tão especial assim no contexto do disco. Na verdade, em se tratando de Egh, pouca coisa pode realmente surpreender, afinal, até para o Nirvana eles já abriram show (!). Ou seja, era quase óbvio que um acústico renderia muito mais que isso nas mãos dele(s).