quarta-feira, dezembro 15, 2004

Extra:

U2 - How to Dismantle an Atomic Bomb (2004)



Depois de quase trinta anos de carreira, correndo por entre vários estilos e poses, indo na "contramão da contradição", o U2 está de volta num dos períodos mais conturbados da história dos Estados Unidos. E é claro que o disco estaria ligado a essa realidade paranóica norte americana, afinal, depois de vocalista de uma das bandas mais importantes da música mundial das últimas décadas, Bono Vox se meteu até em pedidos de perdão da dívida externa. Acontece que o U2 não é apenas Bono, por isso, ao ouvir o esperado How to Dismantle an Atomic Bomb é importante ter em mente o trabalho do U2 como um todo. Partindo deste ponto, e vendo não só a carreira, mas este disco como um todo, é possível perceber que a proposição da banda para desativar uma bomba atômica, mesmo com todas as tendências político-ativistas que passaram a fazer parte das características do U2, é mais óbvia - e em aspectos práticos, utópica - do que parece.

Desde a gravação deste disco, a banda vinha dizendo que seria cru, pesado e cheio de guitarras, quase uma versão mais suja do que é visto no trabalho anterior, "All that you can't leave behind", de 2000. E, de fato, o que sentimos quando terminado "How to dismantle...", é exatamente isso: a quase continuação de um trabalho. Há momentos com na música "Miracle Drug", que poderíamos afirmar categoricamente ser sobra de estúdio do disco anterior. Entretanto, há também canções como "Vertigo", o primeiro single, que estrapolam a proposição "All that you can't..." devido ao som cru e direto, longe das guitarras suaves vistas antes. Ou seja, a banda busca o peso que não se arriscou a procurar no disco anterior, mas mantém a suavidade que caracterizou a maioria das canções do último trabalho.

"How to Dismantle an Atomic Bomb" foi lançado em Novembro deste ano, mas antes disso já estava circulando pela internet uma versão não remixada do disco, que apesar de adiantar ao publico algumas músicas, não dava a noção exata do que se tratava esse novo trabalho da banda. E exatamente por isso surgiram rumores negativos sobre o disco, antes mesmo de chegar as lojas. Quando finalmente lançado, o CD causou uma certa estranheza devido a uma questão lógica: sendo praticamente uma continuação de seu antecessor, "How to dismantle" dificilmente agradaria aqueles que não gostaram do disco de 2000. E esses, infelizmente, eram maioria.

O ponto é que este novo trabalho do U2 demora um pouco para ser digerido. Ele é cru, lembra o disco anterior e, em se tratando de U2, a expectativa é grande em relação ao um novo trabalho. Portanto, fica claro que um disco como este geraria um mal-estar, mesmo sendo o desconforto passageiro. Um exemplo disso é "Love and Peace or Else": é preciso alguma paciência para assimilar a primeira estrofe e as guitarras sujas que surgem depois, mudando o rumo da música; "All because of you" segue a mesma linha de "Vertigo", uma canção direta e de peso, a diferença está na dobra de voz deixa transparecer um pouco do U2 que todos conhecem, além de ser mais pesada do que sua companheira de álbum. Logo, é necessário perder algum tempo, e apertar alguns repets para assimilar esta parte do álbum.

Em contra-posição a estas primeiras estranhezas, há canções que acalmam o mais afobado dos fãs. "City Of Blinding Lights" é uma daquelas canções inegavelmente U2, assim como "One step closer", onde as tão conhecidas guitarras cheias de Delay de The Edge se mostram, mesmo sendo a música uma balada sem grandes surpresas. Ainda na linha de baladas, há "Original of the Species" e "Yahwen", duas belas canções que se encarregam de fechar o disco e - não devido a temática, mas aos arranjos - agradar aos fãs das conhecidas “With or without you” ou “Walk on”.

De certa maneira, e a partir de uma visão bem pessoal deste trabalho, a banda propõe que a guerra ("Love and Peace or Else") nos leva a momentos de não saber o que fazer ("Sometimes You Can't Make It on Your Own"), por isso do desejo de uma droga milagrosa, através da qual é possível ver o mundo como os outros o vêem ("Miracle drug"). No fim, todos querem a paz ("City of Blinding Lights"), e esta, apenas através do amor ("A man and a woman") será alcançado, pois com ele podemos tudo, inclusive evitar/acabar uma guerra, ou metafóricamente falando, desarmar uma bomba atômica. Quando entendermos isso, estaremos a um passo ("One step closer") de ser a origem de uma nova espécie ("Original of the species"), capaz de deixar para trás o que somos hoje, e deixar a cargo de Deus ("Yahwen") as mudanças necessárias. Claro, cada música possui uma interpretação própria - por exemplo, o fato de "Sometimes You Can't..." ser uma homenagem de Bono a seu falecido pai -, mas como disse, está é uma interpretação geral e, principalmente, pessoal

Façamos o seguinte: ouça o disco, pois assim, além de curtir um dos melhores lançamentos de 2004, poderá ter seu próprio entendimento de como desmontar essa bomba atômica de canções chamada U2.