domingo, janeiro 09, 2005

Esta semana:

Skank - Radiola (2004)



O Skank é uma das bandas que melhor marca o cenário pop da música brasileira da década de noventa. Passada a onda "anos oitenta", era preciso que ocorresse uma reformulação, o surgimento de novos rostos, mesmo que o som não fosse tão diferente assim. Neste recorte, duas bandas surgem: Patu Fu e Skank. E estas guardam em si uma característica que já não mais faz parte da realidade fonográfica brasileira. Remontando a carreira dos dois grupos, vemos que seus primeiros trabalhos ("Rotomusic de Liquidificapum" e "Skank"), ambos lançados em 1993, não foram grandes sucessos, pois não era necessário. Parece mentira, mas houve uma época em que as gravadoras investiam na carreira do artista, e não apenas nos sucessos imediatos como temos hoje.

Os tempos são outros, estas duas bandas - hoje com mais de dez anos - têm carreiras sólidas, respeito e um nome já grafado na história da música popular brasileira. É claro, como acontece em todo o universo, os discos de inéditas começam a abrir espaço a lançamentos no formato "ao vivo" e coletâneas, o quê não é de todo mal, afinal, é uma forma de conhecer o grupo no conjunto de sua obra. Entretanto, se mal utilizada tal ferramenta, o artista tende a perder a confiabilidade que construiu ao longo de seus dez, vinte anos de carreira, e, como sabem, não são poucos os exemplos que ilustram bem esse fato. As duas bandas em questão contam com discos ao vivo em sua discografia. Bons discos, por sinal, e lançados em períodos pertinentes - "MTV Ao vivo Skank" em 2001 e "MTV Ao Vivo Pato Fu" em 2002: chegando aos dez anos de carreira, um disco ao vivo é a possibilidade de revisitar algumas velhas músicas e dar uma nova roupagem (fato bem explorado pelo Pato Fu), além de mostrar aos fãs mais novos e preguiçosos como começou toda aquela história que está no palco. O ponto é que até agora nenhuma destas bandas havia lançado uma coletânea, que também uma possibilidade de revisitar a carreira e se apresentar a novos fãs, mas seguramente perigosa se comparada a um disco ao vivo. A primeira a se render ao formato foi o Skank, com o lançamento de "Radiola" em Novembro deste ano.

O primeiro perigo de se lançar uma coletânea passou longe de "Radiola": este é o oitavo disco da banda. De certa maneira, já estava na hora de sair um disco que fizesse um panorama geral da carreira do grupo. Segundo, é provável que não desagrade os fãs mais recentes da banda, e nem os mais velhos. Alguns poderiam apontar como tropeço de "Radiola" dar preferência aos trabalhos anteriores mais recentes do grupo ("Maquinarama" e "Cosmotron"). Acontece que os grandes sucessos dos primeiros discos do grupo ("Jackie Tequila", "Resposta" ou "Garota Nacional", por exemplo) já estão no disco ao vivo de 2001, portanto, o tropeço seria colocá-los novamente neste recém lançado trabalho da banda. Em suma, "Radiola" é uma coletânea bem estruturada não apenas em si, mas no contexto histórico da banda.

Se por um lado não há os sucessos dos primeiros discos da banda, por outro, esta coletânea traz quase todos os últimos hits do Skank. Logicamente dividido, "Radiola" traz quatro músicas de "Maquinarama" (2000) - "Três Lados", "Balada do Amor Inabalável", "Ali" e "Canção Noturna"; quatro músicas de "Cosmotron" (2003) - a tocadíssima "Vou deixar", as baladas "Amores imperfeitos", "Dois Rios" e "Formato mínimo". Ou seja, três grandes hits e duas não tão conhecidas assim ("Ali" e "Formato Mínimo") de cada álbum, inteligentemente inseridas para mostrar que "Maquinarama" e "Cosmotron" vão muito além das músicas radiofonicamente abusadas. Uma boa sacada da banda para fisgar aqueles que não vão muito além do que é tocado nas rádios país à fora.

Esta coletânea ainda conta com quatro músicas inéditas. A primeira e que abre o disco é "Um Mais Um", parceria de Samuel Rosa e Rodrigo Leão que acabou gerando uma psicodelia pop que esquentará muitos luaus verão de 2005. "Vamos Fugir", regravação de Gilberto Gil, é a segunda inédita, gravada especialmente para um comercial de sandálias, está em qualquer top das FMs as última semana. "Onde estão" é mais uma pareceria de Samuel Rosa, desta vez com Nando Reis. Balada voz e violão que também estará nos luaus acima citados. Fechando o disco, está a curiosa versão de "I Want You", de Bob Dylan, gravada para um tributo a Dylan que nunca saiu do papel. Esta versão chama a atenção pois em "Skank", de 1993, temos a música "Tanto", também uma versão para esta música, mas cantada em português. Vale a pena compara-la não só entre as versões do Skank, mas também com a de Dylan, afinal, este nunca é demais.

"Radiola", se comparado a outras tantas coletâneas, é um bom disco. Lançado no momento certo da carreira da banda, é capaz de fazer um retrospecto não só evitando o Skank de cair no erro de lançar vários discos com mesmas músicas, mas principalmente tentando retratar, ao lado dos sucessos, as músicas pouco difundidas que também fazem parte dos trabalhos. Essa onda de sucessos instantâneos acaba deixando boas canções para trás, é o preço do mercado, E somos nós quem pagamos. Teorias mercadológicas à parte, a torcida se volta agora ao Patu Fu, pois o Skank cumpriu bem este novo passo de sua carreira.

* Resenha publicada no site Poppy Corn